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terça-feira, 4 de setembro de 2018













                                                Eu vim lá de Rio Bonito, Paracatu sabe? Nunca mais voltei lá, tenho medo de receber uma martelada. Afinal quem alisa os bancos da elite não pode ficar dando bandeira, voltando ao lugar de origem. Vão logo te ligar a um traficante, é por isto que os jogadores de futebol, todos saídos das favelas, não mais lá retornam. A elite não deixa. Pega mal. Aí você vira politico de direita e até nazista, principalmente se não tiver uma boa educação. Eu me salvei, pela profissão escolhida. Posso enganar mais facilmente o povão e satisfazer a elite, embora saiba que ela nunca irá me aceitar integralmente. Haverá sempre um pedaço do lado de fora que fará com que eu não entre por inteiro. Tenho certeza que numa reunião de notáveis, se um deles der um peido, todos pensarão que fui eu que peidei, mesmo sabendo que todo peido cheira a seu dono.  Eu por exemplo, conheço o cheiro de peido de todos meus amigos. Deu um, nunca mais esqueço. Ele pode voltar a peidar 20, 30 anos depois, logo digo, este é de fulano.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018













                             

                                                   E sendo eu, Geraldo, não José, o africano, fui,  em o ano de 1856, pelo valor de 550$000, vendido a Modesto Gonsalves de Meireles. Meu vendedor Antonio Joaquim de Figueredo me entregou a meu novo senhor que de mim tomou "posse maneira e pacífica".
                                       Quatro anos se passaram na labuta com este novo senhor, nem bruto, nem dócil, e, um dia, encontrando-nos a garimpar nos garimpos da Villa de Lençóis, atividade primeira de meu senhor, que nem sempre era generoso no de comer, como aliás, a maioria dos senhores, segundo me dizem os de minha cor e origem, resolvi de vontade própria, sem que me movesse qualquer outro fado, ir ao distrito policial da Villa de Lençóis e denunciar ao delegado ter sido furtado do poder de meu legítimo senhor na cidade de Santo Amaro, onde tinha vida mais amena que o sofrimento do garimpo, da seca e da fome a que me submetia meu novo senhor.

quarta-feira, 18 de julho de 2018







                       
                               

                                 Cabundá não sou. Bundá, ierê, talvez, trazendo o limbambo como troféu, orgulhoso de meu nhô. Sou vibunde sim e por isto canto alegre meu vissungo. Malungo sou de meu nhonhô. Escravo com muito orgulho. Nasci nas Minas Gerais. Nas Minas não volto mais. O martelo nunca mais. Agora é caneta, de ouro que não sou nenhum besta de usar esferográfica. Lespa! A elite está de joelho a meus pés. Vim e venci. Quem ficou na cachacinha, batendo martelo, lá está até hoje. Muitos dos meus já até morreram ou de cachaça, da polícia. Eu não tenho culpa.

terça-feira, 3 de julho de 2018













                                   
                                                  Vai, cão danado, neste caminho, que tu terás a recompensa, atroz será, espera apenas, descubram tua perfídia. Esqueceste o pesado malho, logo tenhas pegado uma caneta. Os teus não te esquecerão. Vai, quero ver chegares. Não irás a lugar nenhum. Não te enganes. Não penses que o senhor que ver seu antigo escravo, ombro a ombro nas quermesses. Não penses que ele te fez homem, para seres homem, querem-te apenas um escravo especial, com mais habilidade que os outros, para fazeres o trabalho sujo que eles não querem fazer. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018














                                                           E tendo eu pegado dum quicé, acharam, eu, um moleque, iria fincar ela em carne alheia. Eu sou de paz, malungo sou de todos. Não me queiram mal. Pra cortar o fumo, um cigarrim pra pitar. Gosto de pitar. Descansar o martelo, cansado de malear. Não me acuse de mucua-quituxe, só porque não sou soba, mas simples monangamba. Chega de criminalizar a pobreza, paciência tem limites. 


sábado, 2 de junho de 2018













                                                         E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú tomaram cada um o seu incensário e e puseram neles fogo e colocaram incenso sobre e ofereceramfogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara.
                                                 Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor. Aqui o Senhor no Levítico, 10, 1, 2,  que é só de Israel, porque não merecemos Deus tão atroz. Mata de graça a dois pobre coitados.
                                                Eu me chamo Mahommah Gardo Baquaqua, Djougou é minha terra, no Benin. Poderias tu ter vindo, também, de lá? Não, não tens a mesma têmpera. Demasiado, conformista, eu diria, até puxa-saco. Por isto chegaste onde chegaste, vendendo tua alma ao branco, pisando os de tua raça, os de baixo, lambendo as botas dos de cima.
                                            Hoje te vejo nesta empáfia, como te enganas. Achas mesmo que uma sociedade racista, elitista iria te aceitar?                        
                                                 O que fizeram? Te utilizaram à exaustão e depois te jogaram no ostracismo. Em vão tentas botar a cabeça fora, mandando um tuíte, outro acolá. Eles estão cagando para teus tuítes.